As Relações de Paixão e de Amor
- 22 de jan. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de jan. de 2024

Quando queremos contar uma história, seja uma ficção ou a vida real, tendemos a separar as coisas, como fazem os cientistas, colocamos uma lupa em pormenores. Isso torna muitas vezes didático e um pouco mais compreensível aquilo que estamos tentando explicar ou transmitir à outra pessoa. Hoje farei isso para falar de paixão e de amor, mas já ressaltando desde o princípio que é peculiar de cada relação como isso acontece, ou seja, não existe ordem correta, tempo programado e não há como definir todos os entrelaçamentos e acontecimentos de Paixão e Amor entre as pessoas.
Por aqui, decidi falar primeiro da Paixão. Ahhh o encantamento, o coração palpitante, borboletas na barriga, os olhares (também as trocas de olhares) e um sonho (ou muitos sonhos). E aqui vai uma dica para quem quiser permanecer por muito, mas muito tempo mesmo em um estado apaixonado: desvincule-se da pessoa enquanto a paixão está efervescente, enquanto o outro tem um encaixe perfeito ou quase perfeito aos seus desejos. A história de Romeu e Julieta, representa muito bem o estado de apaixonar-se. Na atualidade, os doramas (séries sul-coreanas), são excelentes em apresentar a paixão. Eles utilizam de método e rigor para apresentar cada fase desse apaixonar-se de uma maneira mais desacelerada do que talvez a gente faça geralmente aqui no ocidente, como se estivessem colocando aquela lupa que falei na primeira frase nos encontros que apresentarão durante os filmes ou séries dramáticas ou românticas. E aqui eu entro no tema mais específico que é o encontro romântico. As tramas carregam em si aquele "amor que não se pede, amor que não se mede, que não se repete". Corro o risco de deixar meu texto bem grande então não farei aqui análise de cenas e séries. A ideia é trazer para quem tiver curiosidade a possibilidade de encontrar numa arte bem difundida e contemporânea um encontro com exemplos de Paixão trago aqui em forma de texto de maneira sucinta. E trago justamente as séries sul-coreanas para falar de paixão porque noto um método mesmo, uma sequências. Os protagonistas se encontram; se encantam, se separam e, geralmente, voltam. E é o ponto da separação que é o ponto crucial para indicar a durabilidade de uma paixão. Por causa da separação (seja porque a pessoa morreu, teve que mudar de país, outras pessoas contribuíram para que não ficassem juntos, decisões do próprio casal, etc.), a relação sofre uma impossibilidade de sair do campo do sonho, do desejo e a outra pessoa permanece sendo, não o que ela de fato é mas o que se cria imaginativamente sobre ela. Soundtrack #1, quando o Tempo Estiver Bom, Apaixonados na Cidade e De volta às Raízes são exemplos de séries que apresentam bem estas rupturas que alimentam as paixões.
E o amor? O amor acontece quando cai a ficha (ou quando as fichas vão caindo). Talvez seja uma referência antiga, mas é bem interessante como ela faz sentido. Antigamente quando a gente ligava para alguém do "orelhão" (telefone público), era quando as fichas caiam que se realizavam as ligações. O amor é isso, a ligação quando a ficha cai. Mas qual ficha? A ficha de que o outro não é aquilo que a gente sonhava e que nós também não somos exatamente aquilo que o outro desejava, mas ainda assim a gente se aventura na fragilidade do desconhecido.
O amor (e a Vida!) acontece nos desencontros com o nosso ideal, com o que imaginávamos. O amor acontece quando a gente deixa de tentar ser o ideal do outro e passa a permitir um acesso mais íntimo. A intimidade que revela nossos defeitos, neuras, traumas, etc. Nesse sentido, no amor nos tornamos frágeis. Arriscamos revelar o que nos dá medo, o que nos dá raiva, o que nos entristece. A relação deixa de ter a perfeição da paixão a todo momento. Para quem gosta de dicas de leituras, uma autora que fala muito bem sobre o amor é a Ana Suy. Ela fala que na paixão estamos sós (a gente e nossos sonhos) e no amor nós nos unimos ao outro. Tem série coreana que fala de amor também. De alguma forma as que citei no parágrafo da paixão apresentam os momentos de amor, mas têm algumas que colocam a lupa no amor também. De volta às raízes (e eu disse que não ia falar das séries mas essa merece este parenteses para dizer que ela é belíssima no sentido de que quando estamos juntos, em comunidade, o amor se faz presente e assim é possível suportar o insuportável. Essa série também fala das relações de amor que ultrapassam a paixão em um nível também social. A protagonista passa por cancelamento e, se pararmos para observar, o cancelamento muitas vezes acontece quando acaba a paixão, ou seja, gostamos de alguém enquanto essa pessoa seja a pessoa ideal, se for diferente, deletamos de nossas vidas). Outras séries no estilo e que as pessoas relacionadas acabam apresentando suas fragilidades são Caos Matrimonial e Amor e Outros Dramas.
No amor acontecem muitos desencontros com nossas ideias e ideais, seja o amor romântico, o amor pelo trabalho, as amizades, o amor na família, etc., estes desencontros são inevitáveis e, talvez por isso, são temas muito frequente nas terapias. Na terapia existencial vamos percebendo que a relação com o amor (ou amores) se modifica, toma novas intensidades, novos sentidos a cada vez que contamos nossa história. Na terapia a gente vai fazendo isso, notando a autoria em nossa própria história. Falamos de nossos desejos, sonhos, saudades, medos, decepções, angustias e vamos construindo e processando os acontecimentos das nossas vidas, o que contribui para nossas escolhas e caminhos presentes e futuros. Na terapia, como no amor, a gente acolhe as dores, apoia e juntos vamos encontrando as potências de cada um e possibilidades de se viver a vida.


